Ensaio sobre O ESCULPIDOR DE NUVENS

A poética da falha na fala de Otavio Linhares.
por Alexandre França

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

É sobre o desafio de se escrever uma poética do sempre, do rotineiro “aqui que sempre esteve aqui”, de que trata o livro O esculpidor de Nuvens do escritor e (cabe frisar) ator Otavio Linhares. Por que o livro em questão, neste sentido, é profano em microescala-provinciana dentro da tradição filiativa das poéticas canônicas – Aristóteles a escreveu, Horácio a escreveu, mas eles não tematizaram (talvez por que não coubesse tematizar) a falha de se escrever poéticas como mola para se revelar em negativo a singularidade de um sujeito em fazimento – no fazimento de nuvens, de parcelas que escapam à síntese esclarecedora e, ao mesmo tempo, redutora que constitui uma poética.

Por que Linhares está exatamente no lugar da fala – da quase-singularidade da fala – em sua tentativa de normatização. Sua fala (e não sua escrita) percorre o zig zag do estar aí e não estar – como se pudéssemos sentir em seu cotidiano poético-falhado o silêncio de uma nuvem que quase ganha forma para os nossos olhos. Sua potência arma golpes justamente no lugar da significação comezinha, para novamente se levantar na terra morta do entendimento. Não é à toa a nudez gráfica de sua (aqui sim) escrita sem pontos e vírgulas – Linhares prioriza a fala em sua poética – a fala com sua fluidez nua e belicosa.

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Otavio Linhares também é autor de Pancrácio, lançado em 2013 pelo selo Encrenca – Literatura de Invenção.

E é nesta poética da micro-província, portanto, que escutamos o sujeito lutando contra a maré idiotizante de seus desejos machistas, ou contra o amor banalizado das identidades descartáveis, ou nas relações com o cosmos, com o funcionamento do mundo, em contraste gritante ao funcionamento da cidade. Não é por vanguardismos que Linhares se põe a colocar lado a lado uma espécie de tópico da sua poética (onde ele diz amar euhomem eumulher) recortando o conto erótico onde a garota bebe sêmen como piada, como banalidade trágica deste microcosmo provinciano. É por que a falha se impõe como recurso – a poética se traveste em um modo de usar para mostrar seu demoníaco e real modo de não usar. Os temas, então, se evidenciam num falso gigantismo da significação – o amor é a falha, o sexo é a falha, assim como a televisão é a falha, a família é a falha e os 13 anos é o equívoco. Etapas móveis de um poeta fadado a falhar mais (e como diria Beckett) para falhar melhor.

Ridículo, portanto, seria procurar a linha narrativa de um livro que, como vimos, é a poética das falhas de um poeta em “falhimento”. As nuvens, aqui, passam longe de uma metáfora orgânica de um livro em processo – trata-se de uma poética do equívoco, que Linhares travestiu, sabiamente, com a capa do comezinho, do provinciano, do banal em ascensão. Mas não para nos mostrar o destino fadado a fracassar idiotamente pelas veredas da ingenuidade – Linhares nos mostra como o veneno do tropeço pode, na falta de regras de seu próprio cotidiano, constituir o mel de uma poética ainda por vir. O prazer de ler o Otavio Linhares está na mesma proporção do prazer em se poetizar a própria vida.

Alexandre França é poeta, músico, dramaturgo e diretor da Dezoito Zero Um Cia de Teatro. Faz mestrado na USP em artes cênicas.

Alexandre França / foto de Olívia D’Agnoluzzo

 

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