resenha d’O ESCULPIDOR DE NUVENS – blog Sobretudo

Otavio Linhares esculpe nuvens enquanto tira o osso do cão mentecapto

por Luiz Claudio Oliveira / blog SOBRETUDO

http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/sobretudo/otavio-linhares-esculpe-nuvens-enquanto-tira-o-osso-do-cao-mentecapto/


 

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

este texto não terá maiúsculas nem vírgulas. é assim que eu quero para mostrar como é parte da escritura de otavio linhares no livro o esculpidor de nuvens (curitiba. 2015 – encrenca literatura de invenção). sem vírgulas e maiúsculas. linhares embola a leitura assim como embola as características da linguagem prosaica com a poética. também embola os gêneros literários. o livro é dividido em duas partes. na primeira tem “o esculpidor de nuvens”. é uma voz mais infantil. não no texto ou na maneira de escrever. o que o personagem conta nos leva a crer nisso. o segundo é “o cão mentecapto”. com relatos de um voyeur urbano com problemas sexuais freudianos (quem não os têm?).

é um livro de contos. é um romance. é uma obra de poesia em prosa. é uma novela. são duas novelas. são dois romances curtos. são dois contos longos. são e não são. é e não é.

a literatura moderna vem brincando com esses limites. essas fronteiras de linguagem e gênero literário. é uma encrenca com a qual o leitor tem de saber lidar. literatura de ficção não é para explicar nada. nem dar discursos.

o livro trata de memória. de reflexões. de atitudes. de indagações. acertos e desacertos. trata do cotidiano passado. cotidiano presente. cotidiano inventado. sonhado. imaginado. o que é e o que poderia ter sido. ou não. é uma colagem de textos que montam uma paisagem literária própria que se descola da realidade. mas é uma realidade possível. que não precisa de explicações. epifania. é o que diz o texto de apresentação de roberto alvim.

livro teatral. porque linhares também é do teatro. sua escrita sabe como ser dita da boca pra fora. a literatura dele tem voz e fala. ao contrário da sua personagem primeira que diz: “quero conseguir falar. alguma coisa”. ele e a literatura dele conseguem. e é direto. fala na lata. persegue ensinamentos (ou desejos de escritura) que ele mesmo escreve em um dos textos. justamente aquele chamado de “o impossível”:

“comece do começo. não se perca em fábulas e vozes. e não se atreva a me labirintar entre corredores escuros e sombrios. não crie tabelas. não reverencie. não se emocione nem queira emocionar. não aumente as coisas querendo me dar dribles fantásticos e pulos duplos e triplos no ar. nem tente me tirar o foco. me conte só o que você viu. sem dar nomes, sem dar voz às coisas inanimadas. sem essa coisa de ver o invisível. pare com isso. vamos aqui. papo reto. pá pum!”.

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o autor também dá dribles. tira o foco. vê o invisível. o livro. as histórias que compõem o livro. a trama é várias (são? confuso? é!). é uma fuga e um reencontro. é imaginação real. o cotidiano que nos preenche. nos sufoca. nos escapa. porque não sabemos olhar. não sabemos contar. não sabemos.

“tô indo! queria que o cotidiano não nos estragasse tanto”. diz ele na página 75. “e começar mais um dia pode ser pior do que morrer”. completa em outro texto. na página 78. entre essas duas há ainda um outro texto. de uma só frase. chamado “a memória”. ele diz assim: “a memória é um chute no saco que dura a vida inteira”.

o livro. eu já disse isso aqui. é feito de pequenos textos. eles não têm uma sequência lógica. o leitor que monte o que quiser na sua cabeça. que complemente. que emende. que costure. que imagine. e há alguns textos que são totalmente descolados de tudo. imagino eu. há textos com dedicatória. há até poemas. como esse aqui assim:

o menino

apreendo palavras como quem tange o infinito.
o louco. o cego. o bailarino.

um menino.
que ainda sabe o gosto da chuva.
mesmo com o abismo sob seus pés.

nós. leitores. todos nós. temos de apreender. e deleitar. mesmo sobre o abismo. e isso o otavio linhares nos ensina. apreendemos enquanto nos equilibramos. mesmo que ele não queira ensinar nada. não é trabalho dele. o que ele quer? talvez. quer que a gente lembre o gosto da chuva. talvez. ele não sabe. não se pretende. mas pode ser um pedagogo literário. e como ele mesmo diz em um de seus textos. “e a pedagogia comendo solta. a pedagogia é uma mãe prostituta insana de açoite na mão.”


SERVIÇO

ENCRENCA – Literatura de Invenção
http://www.encrencaliteratura. com.br/loja-online
112 pgs
R$ 32,00

resenha d’O ESCULPIDOR DE NUVENS para a Gazeta do Povo

“O Esculpidor de Nuvens” marca pela densidade poética

Segundo livro de Otavio Linhares atravessa o passado para estabelecer uma linguagemmemorialista própria

31/07/2015 / 17h30 / Daniel Zanella Especial para a Gazeta do Povo

Texto publicado na edição impressa de 01 de agosto de 2015


foto de Olívia D'Agnoluzzo

foto de Olívia D’Agnoluzzo

Em “Nova Poética”, Manuel Bandeira apresenta um propósito: “Vou lançar a teoria do poeta sórdido./ Poeta sórdido:/ Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.” O ideário é plenamente adequado para localizar “O Esculpidor de Nuvens”, segundo livro do curitibano Otavio Linhares, uma descida ao chão escorregadio das memórias primeiras. “me conta a estória da tua adolescência. comece do começo. não se perca em fábulas e vozes. e não se atreva a me labirintar entre corredores escuros e sombrios. não crie tabelas.”

Linhares não é o primeiro, nem será o último a revisitar o passado – toda literatura é exercício de resgate. O que “O Esculpidor de Nuvens” promove de singularidade é uma carga lírica bem acima da média aliada a elementos da escuridão mais densa. Numa encruzilhada entre a dramaturgia de Samuel Beckett, visível principalmente nas elipses narrativas, e uma poética do cotidiano-chão, das palavras que se criam, se chocam e se condensam (como Manuel Bandeira fazia ao andar no interior dos sentidos), a obra se prevalece de um terreno onde nada é permanente, tudo está em trânsito, em constante significação. O resultado é provocante, raramente carregado – possíveis ecos do volume dramatúrgico inerente à obra de Linhares – e estruturalmente corajoso.

Não há compromisso com uma narrativa em si. A própria experiência de recontar literariamente o passado permite um jogo de labirintos e campos abertos, onde cada frase ou capítulo existe para gerar efeito e sentido por si. Ou nenhum dos dois, apenas para proporcionar uma ligação de palavras diferenciada, solo cativo da poesia: “comecei a beber eu tinha 13 anos. Aí eu fui numa festa bebi e entrei em coma alcoólico. parei de beber eu tinha 13 anos.” De uns tempos para cá, muito se tem dito sobre a autoficção, isso de reescrever a própria vida entre o real e o inventado. Em certo momento, por exemplo, Linhares refere-se ao seu personagem como Tavinho, possível vocativo familiar. Importa? Não. Se os autores usam a realidade – seja lá o que isso queira dizer –, para recriar, redizer ou mentir descaradamente, o que de fato vale, na contagem lúdica das bibliotecas, é a capacidade do narrador em produzir impacto, sensação, desmanche, sonho.Nisso de promover contrastes através da “sujidade” do passado, “O Esculpidor de Nuvens” é muito competente. Um livro nada comum.


SERVIÇO

Encrenca – Literatura de Invenção
http://encrencaliteratura.com.br/loja-online
112 páginas / R$ 32,00

resenha d’O Esculpidor de Nuvens

Otavio Linhares e o cotidiano corrido entre pontos

por Lívia Inácio
http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/rodape/otavio-linhares-e-o-cotidiano-corrido-entre-pontos/

foto de Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

Em seu novo livro, Otávio Linhares abre mão da vírgula e nos arrasta de ponto em ponto para onde bem entende. O esculpidor de nuvens, que será lançado neste sábado (25), na Livraria Arte & Letra, tem uma linguagem que se movimenta ao ritmo de cada verbo, numa sincronicidade irresistível. É difícil parar a leitura e não cair nessa dança.

Dividido em duas partes (o esculpidor de nuvens e o cão mentecapto), o trabalho é composto por pequenos textos que a gente não sabe definir ao certo quando são poesia em prosa ou prosa em poesia. Mas essa dúvida passa de relance, já que a leitura de fluxo intenso faz os segundos saltarem tão rapidamente que não nos deixa muito tempo para pensar além das reflexões corridas entre pontos finais. Pontos finais que, com destreza, nos compelem para uma continuidade frenética com a cara da euforia que perpassa os nossos dias.

Ao narrar trivialidades, Otávio desenha o cotidiano unindo o real ao onírico numa mesma linha poética de forma sublime. Publicado pelo Selo Encrenca, que aposta na singularidade literária, O esculpidor de nuvens cai como uma luva na proposta de cunhar uma obra rica e não convencional.

Só o que me pareceu mais do mesmo foi a perspectiva ainda machista com a qual o autor apresentou alguns devaneios sexuais na segunda parte do livro. Em o quinto conto erótico do cão mentecapto, por exemplo, o narrador relata uma fantasia dentro de um ônibus coletivo quando uma mulher obesa cai sobre seu colo. O passageiro volta às primeiras impressões sexuais da adolescência e, em pensamento, se refere à passageira de forma irônica como um mero pedaço de carne gorda.

A segunda parte do livro tende a ser mais visceral do que a primeira. Enquanto a voz do esculpidor de nuvens nos remete a uma inocência afoita e infantil, permeando a doçura, um tom mais amargo e estrito aponta a realidade pessimista do cão mentecapto.

Otávio Linhares, que é formado em Filosofia, História e Artes Cênicas e  editor da Revista Jandique – Literatura Curitibana, teve seu primeiro livro publicado em 2013. Integrado por 11 textos,Pancráciotambém rejeita as convenções literárias tão comuns nos títulos que figuram nas listas dos mais vendidos e permeia os limites da experimentação. Em o esculpidor de nuvens, esse desafio de se aventurar na novidade fica bem claro. E surpreende ao reforçar que não é preciso ser prolixo para produzir algo fora dos padrões.

Lançamento do livro O esculpidor de nuvens – Otávio Linhares
Quando? Amanhã, 25 de julho, às 15h00.
Onde? Na Livraria Arte & Letra, Alameda Presidente Taunay, 130.
Entrada gratuita

O Esculpidor de Nuvens
Otávio Linhares
Encrenca Literatura de invenção
109 páginas
2015

entrevista Gazeta do Povo

Otavio Linhares lança seu segundo livro “O Esculpidor de Nuvens”

tarde de autógrafos acontece neste sábado (25/07) na Livraria Arte & Letra

21/07/2015 / por Sandro Moser

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

O escritor e editor Otávio Linhares lança neste sábado (25) seu segundo livro, “O Esculpidor de Nuvens”, pelo selo Encrenca – Literatura de Invenção. O autor estará a partir das 15 horas autografando os livros na Livraria Arte & Letra (Alameda Pres. Taunay, 130, Batel).

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, “O Esculpidor de Nuvens”, uma voz infantil busca uma saída para a violência domiciliar no silêncio e no diálogo com as coisas inanimadas.

Na segunda parte, “O Cão Mentecapto”, um narrador cínico e sarcástico faz uma viagem tragicômica pelas ruas de Curitiba flertando imageticamente com os personagens da cidade. A exemplo de seu primeiro livro Pancrácio, lançado no ano passado, Linhares escreve de uma forma peculiar sem vírgulas, com poucos pontos e sempre em letra minúscula.

Leia a seguir uma entrevista com o escritor sobre seu novo livro:

O livro é dividido em duas partes, uma mais poética e outra mais mundana. São duas personalidade do autor disputando lugar no livro?

há o Esculpidor de Nuvens que é uma voz infantil: uma primeira visão acerca do que é o mundo, um primeiro olhar sobre as relações humanas e depois familiares e sociais. e há o cão mentecapto que é um adulto. um cara que já massacrado pela própria existência vaga perdido em meio aos seus próprios desejos os quais muitas vezes ele não consegue realizar e disso advêm seus recalques e medos. acho que o cão é o cara do “Pancrácio”(primeiro livro de Linhares, também publicado pela Editora Encrenca no ano passado).


“um pouquinho todo dia a gente morre ou se mata?”

trecho do livro “O Esculpidor de Nuvens”


Você faz opção de linguagem como não usar pontuação nem letras maiúsculas por exemplo. E se dá liberdade de ir da prosa ao texto poético. Estas escolhas são deliberadas e que mensagens há nelas?

totalmente deliberadas. Desde o “Pancrácio” que venho experimentando essa forma de escrita. a exclusão das vírgulas principalmente. as vírgulas nos meus textos sempre funcionaram como um freio. eu relia meus textos e os achava didáticos demais. levou um tempo até perceber que era o meu mal uso das vírgulas. e dos pontos e vírgulas também. então comecei a testar esse formato e me surpreendeu bastante como a exclusão de determinadas pontuações aceleravam os textos. foi minha grande descoberta como escritor. os textos na época ainda ficaram meio estranhos então tive de me acertar com a escolha das palavras. com o trabalho propriamente dito da escrita. foi aí que comecei a encontrar um estilo. poderíamos chamar assim. é um estilo ao qual eu me adaptei e acho que vou nele até o fim. ele imprime velocidade de leitura. a mesma velocidade de raciocínio que eu tenho enquanto escrevo. é rápido. é esquizofrênico. os pensamentos são assim. velozes múltiplos e estranhos. acho que a minha literatura está nesse lugar hoje. acho que é isso que eu quero que as pessoas sintam. essa energia veloz e ao mesmo tempo efêmera. não sei se pra sempre. acho que vou mais um tempo nessa pegada.

Estes textos foram concebidos para formar o livro? Como você os reuniu?

eu tinha alguns já prontos desde a época do pancrácio. e até alguns textos do meu primeiro livro que de alguma forma pediram pra entrar no esculpidor e eu deixei. que são os textos do cão mentecapto. esses são bem soltos e muitas vezes desconexos. apenas textos curtos. já os do esculpidor fui escrevendo dentro de uma lógica de crescimento e amadurecimento dessa voz infantil. de um olhar silencioso e analfabetizado até a adolescência desse olhar. textos curtos que vão se conectando pelo avançar dos anos dessa voz. não sei se é uma criança. prefiro dizer que é uma voz infantil que vai avançando no tempo. e são curtos porque talvez nesse momento eu não saiba escrever textos longos. acho que por ter esse estilo de escrita fica difícil manter o interesse do leitor por mais tempo do que dez páginas. desgasta a leitura seguir nesse ritmo. penso que seja como andar de carro ou de montanha russa durante muito tempo a uma velocidade muito grande. a percepção satura. tento manter meus textos em uma tensão constante sem saturar a percepção das pessoas. se dá certo só saberemos lendo.


“O ESCULPIDOR DE NUVENS é uma epifania;
cabe a nós aceitarmos seu convite e trilharmos as veredas desconhecidas que sua linguagem nos sugere, sem esperança – nem medo.

 

Roberto Alvim (diretor teatral e dramaturgo), que faz a apresentação do livro. Dirigiu o Núcleo de Dramaturgia do SESI-PR por cinco anos.


SERVIÇO

Livraria Arte & Letra
Alameda Pres. Taunay, 130 – Batel, Curitiba PR, 80420-180
25/07 sábado das 15 às 20 hs
(41) 3223-5302

O ESCULPIDOR DE NUVENS / 112 pgs / R$ 32,00

INFORMAÇÕES e ASSESSORIA

Encrenca – Literatura de Invenção
(41) 9911-8664
encrencaliteratura@gmail.com

entrevista para o site Curitiba Lado B

entrevista que o pessoal do Curitiba Lado B fez com o Otavio Linhares essa semana na loja da 4 Beans Coffee Co. na pauta estão os cafés da 4BEANS, a vida de escritor e editor junto ao selo Encrenca – Literatura de Invenção e o lançamento do seu segundo livro, O Esculpidor de Nuvens, que acontece este sábado na livraria Arte & Letra, aqui em curitiba.
ficou muito legal. valeu piazada!

LANÇAMENTOS ENCRENCA

A ENCRENCA está preparando dois lançamentos de autores curitibanos. Um para julho e o outro para agosto.

foto de HENRIQUE THOMS

foto de HENRIQUE THOMS

O ESCULPIDOR DE NUVENS, segundo livro do escritor Otavio Linhares, está marcado para o dia 25/07, às 15 hs, na Livraria Arte e Letra, em Curitiba.
O livro é dividido em duas partes. Uma, intitulada, O Esculpidor de Nuvens, traz narrações de uma voz infantil que desesperada em achar uma saída vê no silêncio e no diálogo com as coisas inanimadas uma fuga da violência domiciliar. A segunda parte, O Cão Mentecapto, é mais cínica e sarcástica, o que dá o tom tragicômico ao narrador que viaja pelas ruas de Curitiba flertando imageticamente com as pessoas e se perdendo em meio a pensamentos esquizos que transbordam da sua boca do silêncio, como ele mesmo irá nos contar.
A foto da capa é do fotógrafo Henrique Thoms e o projeto gráfico do livro ficou nas mãos do ilustrador Frede Marés Tizzot. A apresentação do livro é do diretor e dramaturgo Roberto Alvim.

ilustração, GUINSKI

ilustração de GUINSKI

A NOVA HOLANDA, com lançamento previsto para agosto, também na Livraria Arte & Letra, é uma novela inédita do escritor Sérgio Rubens Sossélla, falecido em novembro de 2003.
Da rara geração (MC Karam, Jamil Snege, Leminski, Wilson Bueno, Valêncio Xavier) dos grandes re-inventores da roda da literatura brasileira, Sossélla foi possivelmente o que se manteve mais afastado de qualquer tipo de holofote. Juiz de direito, escolheu viver longo período de sua vida no interior do estado, na cidade de Paranavaí, onde faleceu. Sossélla chegou a publicar mais de 300 livros, concebidos artesanalmente do conteúdo à capa e impressos em cerca de 10 a 30 exemplares, parte dos quais enviava a alguns poucos amigos.
A NOVA HOLANDA, novela composta por 100 capítulos, é uma obra de singular potência, construída com bases oníricas (sonho e pesadelo), memória e invenções de um universo sui generis, onde a imaginação é sem limites. Sossélla é um daqueles raros gigantes da literatura que, no século passado, escreveu para ser descoberto ao longo deste XXI, por sua vocação inescapável para a contemporaneidade. Fundamentalmente poéticos, os entrelaçamentos existenciais de suas obras inevitavelmente colocam em jogo este lugar estranho onde fomos condenados a viver. Como escreveu o próprio autor: “escrevi este livro para não morrer”.
A ilustração da capa é do artista plástico e programador visual Luiz Antônio GUINSKI e o projeto gráfico do livro é do ilustrador Frede Marés Tizzot.

mais informações:
ENCRENCA – Literatura de Invenção
encrencaliteratura@gmail.com

TERRA INCÓGNITA

Ilustração Daniel Gonçalves / Projeto Gráfico Frede Tizzot

Ilustração Daniel Gonçalves / Projeto Gráfico Frede Tizzot

“Pancrácio”:
a Curitiba pulp

por Daniel Osiecki Jornal Relevo / maio 2015

Na Grécia antiga pancrácio era uma modalidade marcial na qual seus participantes lutavam até um dos lutadores, sem armas, não poder mais continuar e levantar a mão para o juiz perceber e encerrar a disputa. Segundo a mitologia grega, pancrácio teve origem com Hércules e Teseu, que lutaram até os dois heróis praticamente se extinguirem. Pancrácio é uma espécie de antecessor de lutas modernas sem muitas regras nas quais há mais força do que técnica.

“Pancrácio”, de Otavio Linhares, publicado em 2013 pelo selo Encrenca – Literatura de Invenção, é uma narrativa híbrida na qual em meio a uma atmosfera noir e experimentações formais, nos deparamos com situações brutais e sem sentido com grande carga onírica que em determinadas passagens as ações são mais sugeridas do que relatadas de forma real e estanque. Otavio Linhares nasceu em Curitiba. É escritor, ator e barista. É editor da Revista Jandique – Literatura Curitibana na qual publica escritores e artistas curitibanos estreantes e alguns aja conhecidos no meio literário local. “Pancrácio” é seu primeiro livro e Linhares acerta já em sua estreia. É uma bela edição com ilustrações de Daniel Gonçalves. O volume apresenta mais 11 contos sem ligação com a narrativa principal em uma seção no final do livro.

“Pancrácio” não é uma narrativa tradicional, o que é seu maior mérito. Porém, não é uma narrativa pretensamente experimental, com exageros estilísticos que cansariam até cultores bastante ortodoxos da chamada pós-modernidade, mas é um livro autêntico, estilisticamente audacioso sem cair no clichê experimentalóide bastante comum na atualidade. O protagonista, se é que pode-se chamar esse ser espectral de protagonista, é um solitário que persegue espectros como ele. É um ser bastante carrete de afeto em uma atmosfera onírica que deliciosamente prega peças no leitor.

O ritmo dos períodos é frenético, simulando o andamento do pensamento, do delírio, da consciência em um imenso stream of consciousness labiríntico. A princípio os capítulos não são interligados, mas são os desejos e taras do mesmo espectro que servem de protagonista. Conforme a narrativa vai se aproximando do fim, o tom nonsense vai se evidenciando cada vez mais, o que mostra mais uma vez que Linhares não pretende contar uma história, mas desconstruir uma estrutura romanesca tradicional.

O “protagonista” é um desesperado, um aflito, um esquizofrênico, e essa sua esquizofrenia é o que confere o tom igualmente esquizofrênico, confuso e absurdo da narrativa. Assim como o narrador mistura fatos, acontecimentos reais e imaginários, também tem dúvida sob o que narra, o que reflete a ausência (dúvida) dos números dos capítulos finais. “Pancrácio” também apresenta alguns elementos da literatura pulp, como a já mencionada atmosfera noir e certa predominância de meios e ações nonsense. As ilustrações de Daniel Gonçalves no final do livro também recriam esse tipo de narrativa, ao estilo Raymond Chandler ou Orson Welles. Porém, a ficção de Linhares é de extremo bom gosto e muito bem escrita, e a incursão em uma atmosfera pulp é apenas um flerte. Não há dúvidas de que “Pancrácio” é o melhor livro publicado pela Encrenca.

o livro pode ser adquirido com frete grátis na loja online da Encrenca: http://www.encrencaliteratura.com.br/loja-online

Foto Olívia D'Agnoluzzo

Foto Olívia D’Agnoluzzo