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20 grandes livros brasileiros de 2015 / GAZETA DO POVO

Linda Batista, Grande Otelo, Herivelto Martins e Ary Barroso: personagens de “A noite do meu bem”, de Ruy Castro

Linda Batista, Grande Otelo, Herivelto Martins e Ary Barroso: personagens de “A noite do meu bem”, de Ruy Castro

20 grandes livros brasileiros de 2015


A literatura brasileira teve entre seus destaques este ano a poeta Ana Martins Marques, o romancista Raimundo Carrero e o contista Antonio Carlos Viana. Obras de Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, Santuza Cambraia Naves e Ruy Castro iluminaram o lugar da música no país. Veja uma seleção de boas obras lançadas em 2015:


 Veja também


1

Embora não se conheça sua identidade, nem mesmo seu rosto, a italiana Elena Ferrante tornou-se um nome célebre da literatura mundial. Sua obra chegou ao Brasil com “A amiga genial”, romance sobre a busca de uma mulher por uma colega desaparecida, que abre sua “tetralogia napolitana”.

A amiga genial / Elena Ferrante / Ed. Biblioteca Azul, tradução de Maurício Santana Dias

2

O romance da paulistana Beatriz Bracher investiga o desejo, a inocência e os conflitos entre homem e mulher a partir da relação amorosa entre um jovem estudante de literatura obcecado pelo clássico “Paraíso perdido”, do inglês John Milton, e sua vizinha em um prédio de Copacabana.

Anatomia do paraíso / Beatriz Bracher / Ed. 34

3

Completando 40 anos de carreira em 2015, o sergipano Antonio Carlos Viana lançou um volume inédito que o confirma como um dos principais contistas brasileiros. Com uma prosa seca, mostra a humanidade de figuras marginalizadas em contos que transitam entre a sordidez e a exuberância.

Jeito de matar lagartas / Antonio Carlos Viana / Ed. Companhia das Letras

4

Escrito entre Lisboa e Rio, onde viveu por algum tempo, o livro de estreia da poeta portuguesa Matilde Campilho, um dos principais destaques da Flip deste ano, reúne poemas que mesclam dicções de Portugal e do Brasil em versos ágeis, líricos e bem-humorados.

Jóquei / Matilde Campilho / Ed. 34

5

A mineira Maura Lopes Cançado (1929-1993) chamou a atenção da crítica nos anos 1960 com o relato autobiográfico “Hospício é deus” e o volume de contos “O sofredor do ver”, influenciados por sua vivência em manicômios. Reeditados cinco décadas depois, mostram a força duradoura de sua escrita.

Hospício é Deus / O sofredor do ver / Maura Lopes Cançado / Ed. Autêntica

6

A coletânea de ensaios da professora e pesquisadora Santuza Cambraia Naves (1953-2012) reúne 11 artigos que percorrem gêneros diversos, do clássico à bossa nova e ao rap, para analisar de forma rigorosa e acessível o lugar da música na sociedade brasileira ao longo do último século.

A canção brasileira / Santuza Cambraia Naves / Ed. Zahar

7

Três décadas depois de “Feliz ano velho”, Marcelo Rubens Paiva volta a escrever sobre suas memórias neste livro centrado em seu pai, o deputado federal Rubens Paiva, torturado e morto em 1971 pela ditadura, e em sua mãe, Eunice Paiva, que teve importante atuação política e hoje sofre de Alzheimer.

Ainda estou aqui / Marcelo Rubens Paiva / Ed. Alfaguara

8

Depois de contar a história da bossa nova em “Chega de saudade”, o jornalista Ruy Castro se debruçou neste livro sobre o samba-canção, trilha sonora da boemia carioca nos anos 1950. Ao dar importância a um gênero relegado, presta um serviço à história da música popular brasileira.

A noite do meu bem / Ruy Castro / Ed. Companhia das Letras

9

Esta obra de enorme impacto na história da etnografia, lançada em 2010 na França e só agora traduzida para o português, foi escrita em parceria pelo xamã Davi Kopenawa e pelo etnógrafo Bruce Albert para apresentar o pensamento, a tradição cultural e a luta política dos índios ianomâmi.

A queda do céu / Davi Kopenawa e Bruce Albert / Ed. Companhia das Letras

10

Com verbetes como “Preconceito”, “Globalização” e “Batucada”, o dicionário concebido por Nei Lopes e Luiz Antonio Simas percorre um século de história do samba, mostrando-o não como uma tradição congelada no tempo, e sim como uma cultura de grande vitalidade em constante transformação.

Dicionário da história social do samba / Nei Lopes e Luiz Antonio Simas / Ed. Civilização Brasileira

11

Escrito como uma carta a seu filho adolescente, o ensaio do jornalista americano Ta-Nehisi Coates, que se tornou best-seller e foi premiado com o National Book Award, examina passado e presente dos EUA como uma história de persistência do racismo e da violência contra a população negra.

Entre o mundo e eu / Ta-Nehisi Coates / Ed. Objetiva, tradução de Paulo Geiger

12

Setenta anos após sua morte, Mário de Andrade (1893-1945) ganhou sua primeira biografia, escrita pelo professor e pesquisador Eduardo Jardim. Estabelecendo diálogos entre vida e obra do modernista, o livro discute a gênese, os dilemas e a importância de seu projeto cultural para o país.

Eu sou trezentos / Eduardo Jardim / Edições de Janeiro

13

Partindo da constatação de que há uma crise mundial de habitação, a urbanista Raquel Rolnik, ex-relatora da ONU para o direito à moradia, reúne neste livro estudos de casos sobre políticas públicas e mercado imobiliário em países tão diferentes como EUA, Espanha, Brasil e Cazaquistão.

Guerra dos lugares / Raquel Rolnik / Ed. Boitempo

14

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro desenvolve suas teses sobre o “perspectivismo ameríndio”, formadas a partir de estudos entre tribos amazônicas, e defende que a antropologia, como a sociedade brasileira em geral, precisa reconhecer a diferença e a autonomia do pensamento indígena.

Metafísicas canibais / Eduardo Viveiros de Castro / Ed. Cosac Naify

15

Em seu novo romance, “Dias Nublados”, o escritor Luiz Felipe Leprevost cria um narrador andarilho que percorre Curitiba em busca de um passado que lhe deixou marcas profundas. O livro é a segunda parte de sua trilogia da geada que começou com “E Se Contorce Como Um Dragãozinho Ferido”, de 2012.

Dias Nublados / Luiz Felipe Leprevost / IEd. Arte & Letra

16

Em seu terceiro livro, a poeta mineira Ana Martins Marques explora o tema da semelhança em várias formas, da relação entre original e tradução à natureza da memória. O resultado é um conjunto de poemas que, com olhar humanista e imagens inventivas, reflete sobre a relação entre a palavra e o mundo.

O livro das semelhanças / Ana Martins Marques / Ed. Companhia das Letras

17

Em sua volta aos contos depois de publicar peças, crônicas e romances, o pernambucano Ronaldo Correia de Brito retrata personagens imersos num sertão em processo de crescimento desordenado e urbanização incompleta, no qual a dualidade entre o moderno e o arcaico se torna mais evidente.

O amor das sombras / Ronaldo Correia de Brito / Ed. Alfaguara

18

Cinco anos depois de sobreviver a um AVC que paralisou o lado esquerdo de seu corpo, o pernambucano Raimundo Carrero retorna com um romance visceral sobre a proximidade da morte e a luta pela vida. Mesclando memórias, leituras e ficção, faz da própria escrita um instrumento vital.

O senhor agora vai mudar de corpo / Raimundo Carrero / Ed. Record

19

Último livro do curitibano Otavio Linhares, “O Esculpidor de Nuvens” traz uma linguagem peculiar sem vírgulas, com poucos pontos e sempre em letra minúscula. Na primeira parte da obra, intitulada “O Esculpidor de Nuvens”, uma voz infantil busca uma saída para a violência domiciliar no silêncio e no diálogo com as coisas inanimadas. Na segunda parte, “O Cão Mentecapto”, um narrador cínico e sarcástico faz uma viagem tragicômica pelas ruas de Curitiba flertando imageticamente com os personagens da cidade.

O Esculpidor de Nuvens / Otavio Linhares / Ed. Encrenca

20

Cobrindo toda a carreira do autor, da estreia em 1968 até três inéditos recentes, a antologia afirma a posição singular de Leonardo Fróes na poesia brasileira contemporânea, com versos que partem da observação atenta da natureza para refletir sobre a identidade do homem e seu lugar no mundo.

Trilha / Leonardo Fróes / Azougue Editorial

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LANÇAMENTO ENCRENCA

Arquitetura do mofo, de Alexandre França (18/dez – 2015)

O selo editorial ENCRENCA – Literatura de Invenção está com mais um lançamento programado para o próximo dia 18 de dezembro, sexta-feira, a partir das 18 hs, na livraria Arte & Letra.

Alexandre França, CAPA ARQUITETURA DO MOFO

ARQUITETURA DO MOFO é o primeiro livro que o poeta, músico e dramaturgo curitibano, Alexandre França, lança pelo selo. Com quinze anos de estrada, cinco trabalhos impressos, três CDs e sete peças encenadas, o autor, que hoje reside em São Paulo, onde faz mestrado na Escola de Comunicações e Arte da USP, volta à cena literária depois de cinco anos. Seu último trabalho foi o livro de poemas De Doze em Doze Horas (2010) lançado pela sua própria editora, a Dezoito Zero Um.

alexandre françaO romance está dividido em duas partes: A construção e A demolição. Nelas, França vai desenhando, página após página, capítulos que são as vozes de personagens sem nomes, onde, aos poucos, encontramos pistas sensoriais que se conectam dramaturgicamente. Peças de um todo que se aglomera feito mercúrio. Não há uma única imagem a ser construída, mas diferentes esboços de realidades distintas que se tocam em momentos esparsos da obra e constroem o dia a dia dessas vozes.

O Velho Pai, Ele, A Mãe, O Casal, O Filho, como assim denominou o autor, tentam, cada um a sua maneira, dentro de seus respectivos cotidianos, sobreviver. São turistas do horror agindo conforme mandam seus desejos irracionalizáveis por uma cidade que é reflexo do caos individual em suas repetitivas rotinas à espera da morte.

Arquitetura do Mofo é um livro sobre o desespero de estar vivo.

ReleaseMofo reduzido

O Esculpidor de Nuvens no Valor Econômico

O aviso de uma inquietação criativa

Por Cadão Volpato | Para o Valor 04/09/2015
http://www.valor.com.br/cultura/4209632/o-aviso-de-uma-inquietacao-criativa


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Linhares: resultado final tem altos e baixos, mas livro não deve ser ignorado

É difícil achar o equilíbrio quando se tenta alcançar alguma coisa diferente num trabalho
artístico. O século passado foi um tempo de grandes invenções, mas as vanguardas parecem girar em torno do próprio eixo, alternando interesse e desinteresse conforme o ciclo. Hoje vivemos um tempo de esgotamento da invenção. Vivemos, aliás, um esgotamento geral.

Ainda assim, algumas cabeças inquietas tentam mover a roda de outra maneira. Na literatura, a narrativa de autoconfissão continua na moda – mas até quando? Ainda é possível inventar alguma coisa nesse terreno? É possível desafiar a hegemonia do romance lançando mão de formas breves? Os leitores se interessariam pelo assunto?

Jogando tudo isso para o lado, o escritor curitibano Otavio Linhares lança o seu segundo livro, uma coletânea inventiva de contos chamada “O Esculpidor de Nuvens” (pela autoexplicativa editora Encrenca – Literatura de Invenção). Como toda iniciativa fora da curva, o livro nem sempre é bem-sucedido. Tem a vantagem de ser curto, mesmo porque a pontuação do autor não quer saber de vírgulas e outras formalidades do gênero. Às vezes, a poesia também incomoda. Termos esquisitos como “bafo de origames” e achados desencontrados como “a memória é um chute no saco que dura a vida inteira” não ajudam muito. O conjunto, no entanto, tem vida. Nota-se que o escritor está tateando para descobrir um caminho próprio, e não há nada de errado nisso. Se atravessamos a invenção toda, às vezes ruidosa demais, conseguimos descobrir uma narrativa ali, ainda que barulhenta.

“O Esculpidor de Nuvens”, cujo título já é um convite a um lirismo um tanto precioso, reúne dois blocos de contos ou formas muito breves. É preciso que se diga: brevidade não é invenção. Curitiba, aliás, é um dos principais palcos do breve no Brasil, graças aos escritos cada vez mais curtos, incisivos e cruéis de Dalton Trevisan, que também se arrisca ao andar na corda bamba do lirismo. No caso de “O Esculpidor de Nuvens”, a primeira parte centrada numa voz infantil, e “O Cão Mentecapto”, a segunda, em que uma voz adulta vaga por Curitiba, lirismo e cinismo tentam chegar a um acordo. O resultado final tem altos e baixos, mas não deve ser ignorado. O eterno problema para quem trabalha com registros poéticos em prosa é aparar as arestas incessantemente, uma função muito mais próxima da poesia do que pode parecer numa primeira aproximação. É coisa de ourives, e a tendência é uma grande insatisfação.

Que o curitibano Otavio Linhares esteja trilhando por esse caminho é, no mínimo, o aviso de uma inquietação. Isso é bem melhor do que fingir-se de morto e tentar acertar no gosto médio de um suposto leitor que não existe, é invenção.

SERVIÇO
“O Esculpidor de Nuvens” Otavio Linhares Encrenca 112 págs., R$ 32,00 / BB+

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resenha d’O ESCULPIDOR DE NUVENS – blog Sobretudo

Otavio Linhares esculpe nuvens enquanto tira o osso do cão mentecapto

por Luiz Claudio Oliveira / blog SOBRETUDO

http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/sobretudo/otavio-linhares-esculpe-nuvens-enquanto-tira-o-osso-do-cao-mentecapto/


 

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

este texto não terá maiúsculas nem vírgulas. é assim que eu quero para mostrar como é parte da escritura de otavio linhares no livro o esculpidor de nuvens (curitiba. 2015 – encrenca literatura de invenção). sem vírgulas e maiúsculas. linhares embola a leitura assim como embola as características da linguagem prosaica com a poética. também embola os gêneros literários. o livro é dividido em duas partes. na primeira tem “o esculpidor de nuvens”. é uma voz mais infantil. não no texto ou na maneira de escrever. o que o personagem conta nos leva a crer nisso. o segundo é “o cão mentecapto”. com relatos de um voyeur urbano com problemas sexuais freudianos (quem não os têm?).

é um livro de contos. é um romance. é uma obra de poesia em prosa. é uma novela. são duas novelas. são dois romances curtos. são dois contos longos. são e não são. é e não é.

a literatura moderna vem brincando com esses limites. essas fronteiras de linguagem e gênero literário. é uma encrenca com a qual o leitor tem de saber lidar. literatura de ficção não é para explicar nada. nem dar discursos.

o livro trata de memória. de reflexões. de atitudes. de indagações. acertos e desacertos. trata do cotidiano passado. cotidiano presente. cotidiano inventado. sonhado. imaginado. o que é e o que poderia ter sido. ou não. é uma colagem de textos que montam uma paisagem literária própria que se descola da realidade. mas é uma realidade possível. que não precisa de explicações. epifania. é o que diz o texto de apresentação de roberto alvim.

livro teatral. porque linhares também é do teatro. sua escrita sabe como ser dita da boca pra fora. a literatura dele tem voz e fala. ao contrário da sua personagem primeira que diz: “quero conseguir falar. alguma coisa”. ele e a literatura dele conseguem. e é direto. fala na lata. persegue ensinamentos (ou desejos de escritura) que ele mesmo escreve em um dos textos. justamente aquele chamado de “o impossível”:

“comece do começo. não se perca em fábulas e vozes. e não se atreva a me labirintar entre corredores escuros e sombrios. não crie tabelas. não reverencie. não se emocione nem queira emocionar. não aumente as coisas querendo me dar dribles fantásticos e pulos duplos e triplos no ar. nem tente me tirar o foco. me conte só o que você viu. sem dar nomes, sem dar voz às coisas inanimadas. sem essa coisa de ver o invisível. pare com isso. vamos aqui. papo reto. pá pum!”.

perfil facebook

o autor também dá dribles. tira o foco. vê o invisível. o livro. as histórias que compõem o livro. a trama é várias (são? confuso? é!). é uma fuga e um reencontro. é imaginação real. o cotidiano que nos preenche. nos sufoca. nos escapa. porque não sabemos olhar. não sabemos contar. não sabemos.

“tô indo! queria que o cotidiano não nos estragasse tanto”. diz ele na página 75. “e começar mais um dia pode ser pior do que morrer”. completa em outro texto. na página 78. entre essas duas há ainda um outro texto. de uma só frase. chamado “a memória”. ele diz assim: “a memória é um chute no saco que dura a vida inteira”.

o livro. eu já disse isso aqui. é feito de pequenos textos. eles não têm uma sequência lógica. o leitor que monte o que quiser na sua cabeça. que complemente. que emende. que costure. que imagine. e há alguns textos que são totalmente descolados de tudo. imagino eu. há textos com dedicatória. há até poemas. como esse aqui assim:

o menino

apreendo palavras como quem tange o infinito.
o louco. o cego. o bailarino.

um menino.
que ainda sabe o gosto da chuva.
mesmo com o abismo sob seus pés.

nós. leitores. todos nós. temos de apreender. e deleitar. mesmo sobre o abismo. e isso o otavio linhares nos ensina. apreendemos enquanto nos equilibramos. mesmo que ele não queira ensinar nada. não é trabalho dele. o que ele quer? talvez. quer que a gente lembre o gosto da chuva. talvez. ele não sabe. não se pretende. mas pode ser um pedagogo literário. e como ele mesmo diz em um de seus textos. “e a pedagogia comendo solta. a pedagogia é uma mãe prostituta insana de açoite na mão.”


SERVIÇO

ENCRENCA – Literatura de Invenção
http://www.encrencaliteratura. com.br/loja-online
112 pgs
R$ 32,00

resenha d’O ESCULPIDOR DE NUVENS para a Gazeta do Povo

“O Esculpidor de Nuvens” marca pela densidade poética

Segundo livro de Otavio Linhares atravessa o passado para estabelecer uma linguagemmemorialista própria

31/07/2015 / 17h30 / Daniel Zanella Especial para a Gazeta do Povo

Texto publicado na edição impressa de 01 de agosto de 2015


foto de Olívia D'Agnoluzzo

foto de Olívia D’Agnoluzzo

Em “Nova Poética”, Manuel Bandeira apresenta um propósito: “Vou lançar a teoria do poeta sórdido./ Poeta sórdido:/ Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.” O ideário é plenamente adequado para localizar “O Esculpidor de Nuvens”, segundo livro do curitibano Otavio Linhares, uma descida ao chão escorregadio das memórias primeiras. “me conta a estória da tua adolescência. comece do começo. não se perca em fábulas e vozes. e não se atreva a me labirintar entre corredores escuros e sombrios. não crie tabelas.”

Linhares não é o primeiro, nem será o último a revisitar o passado – toda literatura é exercício de resgate. O que “O Esculpidor de Nuvens” promove de singularidade é uma carga lírica bem acima da média aliada a elementos da escuridão mais densa. Numa encruzilhada entre a dramaturgia de Samuel Beckett, visível principalmente nas elipses narrativas, e uma poética do cotidiano-chão, das palavras que se criam, se chocam e se condensam (como Manuel Bandeira fazia ao andar no interior dos sentidos), a obra se prevalece de um terreno onde nada é permanente, tudo está em trânsito, em constante significação. O resultado é provocante, raramente carregado – possíveis ecos do volume dramatúrgico inerente à obra de Linhares – e estruturalmente corajoso.

Não há compromisso com uma narrativa em si. A própria experiência de recontar literariamente o passado permite um jogo de labirintos e campos abertos, onde cada frase ou capítulo existe para gerar efeito e sentido por si. Ou nenhum dos dois, apenas para proporcionar uma ligação de palavras diferenciada, solo cativo da poesia: “comecei a beber eu tinha 13 anos. Aí eu fui numa festa bebi e entrei em coma alcoólico. parei de beber eu tinha 13 anos.” De uns tempos para cá, muito se tem dito sobre a autoficção, isso de reescrever a própria vida entre o real e o inventado. Em certo momento, por exemplo, Linhares refere-se ao seu personagem como Tavinho, possível vocativo familiar. Importa? Não. Se os autores usam a realidade – seja lá o que isso queira dizer –, para recriar, redizer ou mentir descaradamente, o que de fato vale, na contagem lúdica das bibliotecas, é a capacidade do narrador em produzir impacto, sensação, desmanche, sonho.Nisso de promover contrastes através da “sujidade” do passado, “O Esculpidor de Nuvens” é muito competente. Um livro nada comum.


SERVIÇO

Encrenca – Literatura de Invenção
http://encrencaliteratura.com.br/loja-online
112 páginas / R$ 32,00

resenha d’O Esculpidor de Nuvens

Otavio Linhares e o cotidiano corrido entre pontos

por Lívia Inácio
http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/rodape/otavio-linhares-e-o-cotidiano-corrido-entre-pontos/

foto de Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

Em seu novo livro, Otávio Linhares abre mão da vírgula e nos arrasta de ponto em ponto para onde bem entende. O esculpidor de nuvens, que será lançado neste sábado (25), na Livraria Arte & Letra, tem uma linguagem que se movimenta ao ritmo de cada verbo, numa sincronicidade irresistível. É difícil parar a leitura e não cair nessa dança.

Dividido em duas partes (o esculpidor de nuvens e o cão mentecapto), o trabalho é composto por pequenos textos que a gente não sabe definir ao certo quando são poesia em prosa ou prosa em poesia. Mas essa dúvida passa de relance, já que a leitura de fluxo intenso faz os segundos saltarem tão rapidamente que não nos deixa muito tempo para pensar além das reflexões corridas entre pontos finais. Pontos finais que, com destreza, nos compelem para uma continuidade frenética com a cara da euforia que perpassa os nossos dias.

Ao narrar trivialidades, Otávio desenha o cotidiano unindo o real ao onírico numa mesma linha poética de forma sublime. Publicado pelo Selo Encrenca, que aposta na singularidade literária, O esculpidor de nuvens cai como uma luva na proposta de cunhar uma obra rica e não convencional.

Só o que me pareceu mais do mesmo foi a perspectiva ainda machista com a qual o autor apresentou alguns devaneios sexuais na segunda parte do livro. Em o quinto conto erótico do cão mentecapto, por exemplo, o narrador relata uma fantasia dentro de um ônibus coletivo quando uma mulher obesa cai sobre seu colo. O passageiro volta às primeiras impressões sexuais da adolescência e, em pensamento, se refere à passageira de forma irônica como um mero pedaço de carne gorda.

A segunda parte do livro tende a ser mais visceral do que a primeira. Enquanto a voz do esculpidor de nuvens nos remete a uma inocência afoita e infantil, permeando a doçura, um tom mais amargo e estrito aponta a realidade pessimista do cão mentecapto.

Otávio Linhares, que é formado em Filosofia, História e Artes Cênicas e  editor da Revista Jandique – Literatura Curitibana, teve seu primeiro livro publicado em 2013. Integrado por 11 textos,Pancráciotambém rejeita as convenções literárias tão comuns nos títulos que figuram nas listas dos mais vendidos e permeia os limites da experimentação. Em o esculpidor de nuvens, esse desafio de se aventurar na novidade fica bem claro. E surpreende ao reforçar que não é preciso ser prolixo para produzir algo fora dos padrões.

Lançamento do livro O esculpidor de nuvens – Otávio Linhares
Quando? Amanhã, 25 de julho, às 15h00.
Onde? Na Livraria Arte & Letra, Alameda Presidente Taunay, 130.
Entrada gratuita

O Esculpidor de Nuvens
Otávio Linhares
Encrenca Literatura de invenção
109 páginas
2015

entrevista Gazeta do Povo

Otavio Linhares lança seu segundo livro “O Esculpidor de Nuvens”

tarde de autógrafos acontece neste sábado (25/07) na Livraria Arte & Letra

21/07/2015 / por Sandro Moser

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

O escritor e editor Otávio Linhares lança neste sábado (25) seu segundo livro, “O Esculpidor de Nuvens”, pelo selo Encrenca – Literatura de Invenção. O autor estará a partir das 15 horas autografando os livros na Livraria Arte & Letra (Alameda Pres. Taunay, 130, Batel).

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, “O Esculpidor de Nuvens”, uma voz infantil busca uma saída para a violência domiciliar no silêncio e no diálogo com as coisas inanimadas.

Na segunda parte, “O Cão Mentecapto”, um narrador cínico e sarcástico faz uma viagem tragicômica pelas ruas de Curitiba flertando imageticamente com os personagens da cidade. A exemplo de seu primeiro livro Pancrácio, lançado no ano passado, Linhares escreve de uma forma peculiar sem vírgulas, com poucos pontos e sempre em letra minúscula.

Leia a seguir uma entrevista com o escritor sobre seu novo livro:

O livro é dividido em duas partes, uma mais poética e outra mais mundana. São duas personalidade do autor disputando lugar no livro?

há o Esculpidor de Nuvens que é uma voz infantil: uma primeira visão acerca do que é o mundo, um primeiro olhar sobre as relações humanas e depois familiares e sociais. e há o cão mentecapto que é um adulto. um cara que já massacrado pela própria existência vaga perdido em meio aos seus próprios desejos os quais muitas vezes ele não consegue realizar e disso advêm seus recalques e medos. acho que o cão é o cara do “Pancrácio”(primeiro livro de Linhares, também publicado pela Editora Encrenca no ano passado).


“um pouquinho todo dia a gente morre ou se mata?”

trecho do livro “O Esculpidor de Nuvens”


Você faz opção de linguagem como não usar pontuação nem letras maiúsculas por exemplo. E se dá liberdade de ir da prosa ao texto poético. Estas escolhas são deliberadas e que mensagens há nelas?

totalmente deliberadas. Desde o “Pancrácio” que venho experimentando essa forma de escrita. a exclusão das vírgulas principalmente. as vírgulas nos meus textos sempre funcionaram como um freio. eu relia meus textos e os achava didáticos demais. levou um tempo até perceber que era o meu mal uso das vírgulas. e dos pontos e vírgulas também. então comecei a testar esse formato e me surpreendeu bastante como a exclusão de determinadas pontuações aceleravam os textos. foi minha grande descoberta como escritor. os textos na época ainda ficaram meio estranhos então tive de me acertar com a escolha das palavras. com o trabalho propriamente dito da escrita. foi aí que comecei a encontrar um estilo. poderíamos chamar assim. é um estilo ao qual eu me adaptei e acho que vou nele até o fim. ele imprime velocidade de leitura. a mesma velocidade de raciocínio que eu tenho enquanto escrevo. é rápido. é esquizofrênico. os pensamentos são assim. velozes múltiplos e estranhos. acho que a minha literatura está nesse lugar hoje. acho que é isso que eu quero que as pessoas sintam. essa energia veloz e ao mesmo tempo efêmera. não sei se pra sempre. acho que vou mais um tempo nessa pegada.

Estes textos foram concebidos para formar o livro? Como você os reuniu?

eu tinha alguns já prontos desde a época do pancrácio. e até alguns textos do meu primeiro livro que de alguma forma pediram pra entrar no esculpidor e eu deixei. que são os textos do cão mentecapto. esses são bem soltos e muitas vezes desconexos. apenas textos curtos. já os do esculpidor fui escrevendo dentro de uma lógica de crescimento e amadurecimento dessa voz infantil. de um olhar silencioso e analfabetizado até a adolescência desse olhar. textos curtos que vão se conectando pelo avançar dos anos dessa voz. não sei se é uma criança. prefiro dizer que é uma voz infantil que vai avançando no tempo. e são curtos porque talvez nesse momento eu não saiba escrever textos longos. acho que por ter esse estilo de escrita fica difícil manter o interesse do leitor por mais tempo do que dez páginas. desgasta a leitura seguir nesse ritmo. penso que seja como andar de carro ou de montanha russa durante muito tempo a uma velocidade muito grande. a percepção satura. tento manter meus textos em uma tensão constante sem saturar a percepção das pessoas. se dá certo só saberemos lendo.


“O ESCULPIDOR DE NUVENS é uma epifania;
cabe a nós aceitarmos seu convite e trilharmos as veredas desconhecidas que sua linguagem nos sugere, sem esperança – nem medo.

 

Roberto Alvim (diretor teatral e dramaturgo), que faz a apresentação do livro. Dirigiu o Núcleo de Dramaturgia do SESI-PR por cinco anos.


SERVIÇO

Livraria Arte & Letra
Alameda Pres. Taunay, 130 – Batel, Curitiba PR, 80420-180
25/07 sábado das 15 às 20 hs
(41) 3223-5302

O ESCULPIDOR DE NUVENS / 112 pgs / R$ 32,00

INFORMAÇÕES e ASSESSORIA

Encrenca – Literatura de Invenção
(41) 9911-8664
encrencaliteratura@gmail.com