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20 grandes livros brasileiros de 2015 / GAZETA DO POVO

Linda Batista, Grande Otelo, Herivelto Martins e Ary Barroso: personagens de “A noite do meu bem”, de Ruy Castro

Linda Batista, Grande Otelo, Herivelto Martins e Ary Barroso: personagens de “A noite do meu bem”, de Ruy Castro

20 grandes livros brasileiros de 2015


A literatura brasileira teve entre seus destaques este ano a poeta Ana Martins Marques, o romancista Raimundo Carrero e o contista Antonio Carlos Viana. Obras de Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, Santuza Cambraia Naves e Ruy Castro iluminaram o lugar da música no país. Veja uma seleção de boas obras lançadas em 2015:


 Veja também


1

Embora não se conheça sua identidade, nem mesmo seu rosto, a italiana Elena Ferrante tornou-se um nome célebre da literatura mundial. Sua obra chegou ao Brasil com “A amiga genial”, romance sobre a busca de uma mulher por uma colega desaparecida, que abre sua “tetralogia napolitana”.

A amiga genial / Elena Ferrante / Ed. Biblioteca Azul, tradução de Maurício Santana Dias

2

O romance da paulistana Beatriz Bracher investiga o desejo, a inocência e os conflitos entre homem e mulher a partir da relação amorosa entre um jovem estudante de literatura obcecado pelo clássico “Paraíso perdido”, do inglês John Milton, e sua vizinha em um prédio de Copacabana.

Anatomia do paraíso / Beatriz Bracher / Ed. 34

3

Completando 40 anos de carreira em 2015, o sergipano Antonio Carlos Viana lançou um volume inédito que o confirma como um dos principais contistas brasileiros. Com uma prosa seca, mostra a humanidade de figuras marginalizadas em contos que transitam entre a sordidez e a exuberância.

Jeito de matar lagartas / Antonio Carlos Viana / Ed. Companhia das Letras

4

Escrito entre Lisboa e Rio, onde viveu por algum tempo, o livro de estreia da poeta portuguesa Matilde Campilho, um dos principais destaques da Flip deste ano, reúne poemas que mesclam dicções de Portugal e do Brasil em versos ágeis, líricos e bem-humorados.

Jóquei / Matilde Campilho / Ed. 34

5

A mineira Maura Lopes Cançado (1929-1993) chamou a atenção da crítica nos anos 1960 com o relato autobiográfico “Hospício é deus” e o volume de contos “O sofredor do ver”, influenciados por sua vivência em manicômios. Reeditados cinco décadas depois, mostram a força duradoura de sua escrita.

Hospício é Deus / O sofredor do ver / Maura Lopes Cançado / Ed. Autêntica

6

A coletânea de ensaios da professora e pesquisadora Santuza Cambraia Naves (1953-2012) reúne 11 artigos que percorrem gêneros diversos, do clássico à bossa nova e ao rap, para analisar de forma rigorosa e acessível o lugar da música na sociedade brasileira ao longo do último século.

A canção brasileira / Santuza Cambraia Naves / Ed. Zahar

7

Três décadas depois de “Feliz ano velho”, Marcelo Rubens Paiva volta a escrever sobre suas memórias neste livro centrado em seu pai, o deputado federal Rubens Paiva, torturado e morto em 1971 pela ditadura, e em sua mãe, Eunice Paiva, que teve importante atuação política e hoje sofre de Alzheimer.

Ainda estou aqui / Marcelo Rubens Paiva / Ed. Alfaguara

8

Depois de contar a história da bossa nova em “Chega de saudade”, o jornalista Ruy Castro se debruçou neste livro sobre o samba-canção, trilha sonora da boemia carioca nos anos 1950. Ao dar importância a um gênero relegado, presta um serviço à história da música popular brasileira.

A noite do meu bem / Ruy Castro / Ed. Companhia das Letras

9

Esta obra de enorme impacto na história da etnografia, lançada em 2010 na França e só agora traduzida para o português, foi escrita em parceria pelo xamã Davi Kopenawa e pelo etnógrafo Bruce Albert para apresentar o pensamento, a tradição cultural e a luta política dos índios ianomâmi.

A queda do céu / Davi Kopenawa e Bruce Albert / Ed. Companhia das Letras

10

Com verbetes como “Preconceito”, “Globalização” e “Batucada”, o dicionário concebido por Nei Lopes e Luiz Antonio Simas percorre um século de história do samba, mostrando-o não como uma tradição congelada no tempo, e sim como uma cultura de grande vitalidade em constante transformação.

Dicionário da história social do samba / Nei Lopes e Luiz Antonio Simas / Ed. Civilização Brasileira

11

Escrito como uma carta a seu filho adolescente, o ensaio do jornalista americano Ta-Nehisi Coates, que se tornou best-seller e foi premiado com o National Book Award, examina passado e presente dos EUA como uma história de persistência do racismo e da violência contra a população negra.

Entre o mundo e eu / Ta-Nehisi Coates / Ed. Objetiva, tradução de Paulo Geiger

12

Setenta anos após sua morte, Mário de Andrade (1893-1945) ganhou sua primeira biografia, escrita pelo professor e pesquisador Eduardo Jardim. Estabelecendo diálogos entre vida e obra do modernista, o livro discute a gênese, os dilemas e a importância de seu projeto cultural para o país.

Eu sou trezentos / Eduardo Jardim / Edições de Janeiro

13

Partindo da constatação de que há uma crise mundial de habitação, a urbanista Raquel Rolnik, ex-relatora da ONU para o direito à moradia, reúne neste livro estudos de casos sobre políticas públicas e mercado imobiliário em países tão diferentes como EUA, Espanha, Brasil e Cazaquistão.

Guerra dos lugares / Raquel Rolnik / Ed. Boitempo

14

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro desenvolve suas teses sobre o “perspectivismo ameríndio”, formadas a partir de estudos entre tribos amazônicas, e defende que a antropologia, como a sociedade brasileira em geral, precisa reconhecer a diferença e a autonomia do pensamento indígena.

Metafísicas canibais / Eduardo Viveiros de Castro / Ed. Cosac Naify

15

Em seu novo romance, “Dias Nublados”, o escritor Luiz Felipe Leprevost cria um narrador andarilho que percorre Curitiba em busca de um passado que lhe deixou marcas profundas. O livro é a segunda parte de sua trilogia da geada que começou com “E Se Contorce Como Um Dragãozinho Ferido”, de 2012.

Dias Nublados / Luiz Felipe Leprevost / IEd. Arte & Letra

16

Em seu terceiro livro, a poeta mineira Ana Martins Marques explora o tema da semelhança em várias formas, da relação entre original e tradução à natureza da memória. O resultado é um conjunto de poemas que, com olhar humanista e imagens inventivas, reflete sobre a relação entre a palavra e o mundo.

O livro das semelhanças / Ana Martins Marques / Ed. Companhia das Letras

17

Em sua volta aos contos depois de publicar peças, crônicas e romances, o pernambucano Ronaldo Correia de Brito retrata personagens imersos num sertão em processo de crescimento desordenado e urbanização incompleta, no qual a dualidade entre o moderno e o arcaico se torna mais evidente.

O amor das sombras / Ronaldo Correia de Brito / Ed. Alfaguara

18

Cinco anos depois de sobreviver a um AVC que paralisou o lado esquerdo de seu corpo, o pernambucano Raimundo Carrero retorna com um romance visceral sobre a proximidade da morte e a luta pela vida. Mesclando memórias, leituras e ficção, faz da própria escrita um instrumento vital.

O senhor agora vai mudar de corpo / Raimundo Carrero / Ed. Record

19

Último livro do curitibano Otavio Linhares, “O Esculpidor de Nuvens” traz uma linguagem peculiar sem vírgulas, com poucos pontos e sempre em letra minúscula. Na primeira parte da obra, intitulada “O Esculpidor de Nuvens”, uma voz infantil busca uma saída para a violência domiciliar no silêncio e no diálogo com as coisas inanimadas. Na segunda parte, “O Cão Mentecapto”, um narrador cínico e sarcástico faz uma viagem tragicômica pelas ruas de Curitiba flertando imageticamente com os personagens da cidade.

O Esculpidor de Nuvens / Otavio Linhares / Ed. Encrenca

20

Cobrindo toda a carreira do autor, da estreia em 1968 até três inéditos recentes, a antologia afirma a posição singular de Leonardo Fróes na poesia brasileira contemporânea, com versos que partem da observação atenta da natureza para refletir sobre a identidade do homem e seu lugar no mundo.

Trilha / Leonardo Fróes / Azougue Editorial

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teaser ARQUITETURA DO MOFO

 


 

logo encrenca

Arquitetura do mofo, de Alexandre França (dez – 2015)

Alexandre França, CAPA ARQUITETURA DO MOFO

O selo editorial ENCRENCA – Literatura de Invenção está com mais um lançamento programado para o próximo dia 18 de dezembro, sexta-feira, a partir das 18 hs, na livraria Arte & Letra.

ARQUITETURA DO MOFO é o primeiro livro que o poeta, músico e dramaturgo curitibano, Alexandre França, lança pelo selo. Com quinze anos de estrada, cinco trabalhos impressos, três CDs e sete peças encenadas, o autor, que hoje reside em São Paulo, onde faz mestrado na Escola de Comunicações e Arte da USP, volta à cena literária depois de cinco anos. Seu último trabalho foi o livro de poemas De Doze em Doze Horas (2010) lançado pela sua própria editora, a Dezoito Zero Um.

O romance está dividido em duas partes: A construção e A demolição. Nelas, França vai desenhando, página após página, capítulos que são as vozes de personagens sem nomes, onde, aos poucos, encontramos pistas sensoriais que se conectam dramaturgicamente. Peças de um todo que se aglomera feito mercúrio. Não há uma única imagem a ser construída, mas diferentes esboços de realidades distintas que se tocam em momentos esparsos da obra e constroem o dia a dia dessas vozes.

O Velho Pai, Ele, A Mãe, O Casal, O Filho, como assim denominou o autor, tentam, cada um a sua maneira, dentro de seus respectivos cotidianos, sobreviver. São turistas do horror agindo conforme mandam seus desejos irracionalizáveis por uma cidade que é reflexo do caos individual em suas repetitivas rotinas à espera da morte.

Arquitetura do Mofo é um livro sobre o desespero de estar vivo.


Alexandre França nasceu em Curitiba em 1982. Compositor de música, poesia, prosa e teatro, é também diretor da companhia Dezoito Zero Um e do Coletivo de Heterônimos.


SERVIÇO

Livraria Arte & Letra
Alameda Pres. Taunay, 130 – Batel, Curitiba – PR, 80420-180
Dia 18/12, sexta-feira, das 18:00 às 21:00 hs
(41) 3223-5302

ARQUITETURA DO MOFO / 214 pgs / $ 45,00


INFORMAÇÕES e ASSESSORIA

ENCRENCA – Literatura de Invenção
(41) 3223-5302 / 9911-8664
encrencaliteratura@gmail.com

ReleaseMofo reduzido

lançamento ENCRENCA em são paulo


logo encrenca

Elefantes, de Lucas Miyazaki Brancucci (dez – 2015)

O poeta Lucas Miyazaki Brancucci, em parceria com o selo editorial ENCRENCA – Literatura de Invenção, está com um lançamento programado para o próximo dia 19 de dezembro, sábado, a partir das 16 hs, na Associação Cultural Cecília, em São Paulo.

lucasELEFANTES é o primeiro livro de poesia do selo ENCRENCA e também a estreia do autor na literatura. Paulistano de nascimento, Lucas atualmente cursa Letras na USP e recentemente foi vencedor do Programa Nascente 2015.

Dentro dos 28 poemas de ELEFANTES a fluidez dos movimentos e os próprios fluidos dos corpos que se tocam se misturam de forma indissociável e conduzem o leitor por um universo que ora é atraído pelo universo poético e abstrato da infância, ora pelo real e concreto de um corpo que cresce e se vê envolto em paixão, desejo e sexo.

capa ELEFANTES reduzida
projeto gráfico de Frede Tizzot

Lola e Bel lambem-se, e isso é um delícia. Essa constatação primeira
orienta o prazer e o gosto na leitura e releitura dos poemas que compõem este livro. A leitura veio como convite, e a sua releitura pela ressonância que em nós ela atinge de forma indelével. Há um roteiro em fotogramas construído com muita sensibilidade, do primeiro ao último verso, por meio de um caleidoscópio particular: cores-chave, animais que nos dão o mundo e resíduos que reconstroem até a astrofísica. Há, também, um diálogo sutil soprando que um poeta são muitos poetas. Uma cidade, enfim, e uma idade, irremediavelmente perdidas e recuperadas pela linguagem. Aqui, beleza, tempo e espaço é uma lucidez-expressa e, por isso mesmo, o brilho da lâmina.” Ivan Forneron

Durante o lançamento haverá uma performance do livro com Marina Affarez.

Para conhecer mais sobre a obra do autor: www.lucasbrancucci.wordpress.com


SERVIÇO

Associação Cultural Cecília
Rua Vitorino Carmilo, 449 – Santa Cecília – São Paulo – SP
Dia 19/12, sábado, a partir das 16 hs
(11) 3667-0262 / 94228-6675

ELEFANTES / 74 pgs / $ 24,00
R$ 5,00 DE CADA LIVRO VENDIDO SERÁ DOADO ÀS FAMÍLIAS DE MARIANA – MG


INFORMAÇÕES e ASSESSORIA

ENCRENCA – Literatura de Invenção
(41) 3223-5302 / 9911-8664
encrencaliteratura@gmail.com

LANÇAMENTO ENCRENCA

Arquitetura do mofo, de Alexandre França (18/dez – 2015)

O selo editorial ENCRENCA – Literatura de Invenção está com mais um lançamento programado para o próximo dia 18 de dezembro, sexta-feira, a partir das 18 hs, na livraria Arte & Letra.

Alexandre França, CAPA ARQUITETURA DO MOFO

ARQUITETURA DO MOFO é o primeiro livro que o poeta, músico e dramaturgo curitibano, Alexandre França, lança pelo selo. Com quinze anos de estrada, cinco trabalhos impressos, três CDs e sete peças encenadas, o autor, que hoje reside em São Paulo, onde faz mestrado na Escola de Comunicações e Arte da USP, volta à cena literária depois de cinco anos. Seu último trabalho foi o livro de poemas De Doze em Doze Horas (2010) lançado pela sua própria editora, a Dezoito Zero Um.

alexandre françaO romance está dividido em duas partes: A construção e A demolição. Nelas, França vai desenhando, página após página, capítulos que são as vozes de personagens sem nomes, onde, aos poucos, encontramos pistas sensoriais que se conectam dramaturgicamente. Peças de um todo que se aglomera feito mercúrio. Não há uma única imagem a ser construída, mas diferentes esboços de realidades distintas que se tocam em momentos esparsos da obra e constroem o dia a dia dessas vozes.

O Velho Pai, Ele, A Mãe, O Casal, O Filho, como assim denominou o autor, tentam, cada um a sua maneira, dentro de seus respectivos cotidianos, sobreviver. São turistas do horror agindo conforme mandam seus desejos irracionalizáveis por uma cidade que é reflexo do caos individual em suas repetitivas rotinas à espera da morte.

Arquitetura do Mofo é um livro sobre o desespero de estar vivo.

ReleaseMofo reduzido

Ensaio sobre O ESCULPIDOR DE NUVENS

A poética da falha na fala de Otavio Linhares.
por Alexandre França

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

É sobre o desafio de se escrever uma poética do sempre, do rotineiro “aqui que sempre esteve aqui”, de que trata o livro O esculpidor de Nuvens do escritor e (cabe frisar) ator Otavio Linhares. Por que o livro em questão, neste sentido, é profano em microescala-provinciana dentro da tradição filiativa das poéticas canônicas – Aristóteles a escreveu, Horácio a escreveu, mas eles não tematizaram (talvez por que não coubesse tematizar) a falha de se escrever poéticas como mola para se revelar em negativo a singularidade de um sujeito em fazimento – no fazimento de nuvens, de parcelas que escapam à síntese esclarecedora e, ao mesmo tempo, redutora que constitui uma poética.

Por que Linhares está exatamente no lugar da fala – da quase-singularidade da fala – em sua tentativa de normatização. Sua fala (e não sua escrita) percorre o zig zag do estar aí e não estar – como se pudéssemos sentir em seu cotidiano poético-falhado o silêncio de uma nuvem que quase ganha forma para os nossos olhos. Sua potência arma golpes justamente no lugar da significação comezinha, para novamente se levantar na terra morta do entendimento. Não é à toa a nudez gráfica de sua (aqui sim) escrita sem pontos e vírgulas – Linhares prioriza a fala em sua poética – a fala com sua fluidez nua e belicosa.

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Otavio Linhares também é autor de Pancrácio, lançado em 2013 pelo selo Encrenca – Literatura de Invenção.

E é nesta poética da micro-província, portanto, que escutamos o sujeito lutando contra a maré idiotizante de seus desejos machistas, ou contra o amor banalizado das identidades descartáveis, ou nas relações com o cosmos, com o funcionamento do mundo, em contraste gritante ao funcionamento da cidade. Não é por vanguardismos que Linhares se põe a colocar lado a lado uma espécie de tópico da sua poética (onde ele diz amar euhomem eumulher) recortando o conto erótico onde a garota bebe sêmen como piada, como banalidade trágica deste microcosmo provinciano. É por que a falha se impõe como recurso – a poética se traveste em um modo de usar para mostrar seu demoníaco e real modo de não usar. Os temas, então, se evidenciam num falso gigantismo da significação – o amor é a falha, o sexo é a falha, assim como a televisão é a falha, a família é a falha e os 13 anos é o equívoco. Etapas móveis de um poeta fadado a falhar mais (e como diria Beckett) para falhar melhor.

Ridículo, portanto, seria procurar a linha narrativa de um livro que, como vimos, é a poética das falhas de um poeta em “falhimento”. As nuvens, aqui, passam longe de uma metáfora orgânica de um livro em processo – trata-se de uma poética do equívoco, que Linhares travestiu, sabiamente, com a capa do comezinho, do provinciano, do banal em ascensão. Mas não para nos mostrar o destino fadado a fracassar idiotamente pelas veredas da ingenuidade – Linhares nos mostra como o veneno do tropeço pode, na falta de regras de seu próprio cotidiano, constituir o mel de uma poética ainda por vir. O prazer de ler o Otavio Linhares está na mesma proporção do prazer em se poetizar a própria vida.

Alexandre França é poeta, músico, dramaturgo e diretor da Dezoito Zero Um Cia de Teatro. Faz mestrado na USP em artes cênicas.

Alexandre França / foto de Olívia D’Agnoluzzo

 

O Esculpidor de Nuvens no Valor Econômico

O aviso de uma inquietação criativa

Por Cadão Volpato | Para o Valor 04/09/2015
http://www.valor.com.br/cultura/4209632/o-aviso-de-uma-inquietacao-criativa


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Linhares: resultado final tem altos e baixos, mas livro não deve ser ignorado

É difícil achar o equilíbrio quando se tenta alcançar alguma coisa diferente num trabalho
artístico. O século passado foi um tempo de grandes invenções, mas as vanguardas parecem girar em torno do próprio eixo, alternando interesse e desinteresse conforme o ciclo. Hoje vivemos um tempo de esgotamento da invenção. Vivemos, aliás, um esgotamento geral.

Ainda assim, algumas cabeças inquietas tentam mover a roda de outra maneira. Na literatura, a narrativa de autoconfissão continua na moda – mas até quando? Ainda é possível inventar alguma coisa nesse terreno? É possível desafiar a hegemonia do romance lançando mão de formas breves? Os leitores se interessariam pelo assunto?

Jogando tudo isso para o lado, o escritor curitibano Otavio Linhares lança o seu segundo livro, uma coletânea inventiva de contos chamada “O Esculpidor de Nuvens” (pela autoexplicativa editora Encrenca – Literatura de Invenção). Como toda iniciativa fora da curva, o livro nem sempre é bem-sucedido. Tem a vantagem de ser curto, mesmo porque a pontuação do autor não quer saber de vírgulas e outras formalidades do gênero. Às vezes, a poesia também incomoda. Termos esquisitos como “bafo de origames” e achados desencontrados como “a memória é um chute no saco que dura a vida inteira” não ajudam muito. O conjunto, no entanto, tem vida. Nota-se que o escritor está tateando para descobrir um caminho próprio, e não há nada de errado nisso. Se atravessamos a invenção toda, às vezes ruidosa demais, conseguimos descobrir uma narrativa ali, ainda que barulhenta.

“O Esculpidor de Nuvens”, cujo título já é um convite a um lirismo um tanto precioso, reúne dois blocos de contos ou formas muito breves. É preciso que se diga: brevidade não é invenção. Curitiba, aliás, é um dos principais palcos do breve no Brasil, graças aos escritos cada vez mais curtos, incisivos e cruéis de Dalton Trevisan, que também se arrisca ao andar na corda bamba do lirismo. No caso de “O Esculpidor de Nuvens”, a primeira parte centrada numa voz infantil, e “O Cão Mentecapto”, a segunda, em que uma voz adulta vaga por Curitiba, lirismo e cinismo tentam chegar a um acordo. O resultado final tem altos e baixos, mas não deve ser ignorado. O eterno problema para quem trabalha com registros poéticos em prosa é aparar as arestas incessantemente, uma função muito mais próxima da poesia do que pode parecer numa primeira aproximação. É coisa de ourives, e a tendência é uma grande insatisfação.

Que o curitibano Otavio Linhares esteja trilhando por esse caminho é, no mínimo, o aviso de uma inquietação. Isso é bem melhor do que fingir-se de morto e tentar acertar no gosto médio de um suposto leitor que não existe, é invenção.

SERVIÇO
“O Esculpidor de Nuvens” Otavio Linhares Encrenca 112 págs., R$ 32,00 / BB+

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http://www.encrencaliteratura.com.br/loja-online

 

resenha d’O ESCULPIDOR DE NUVENS – blog Sobretudo

Otavio Linhares esculpe nuvens enquanto tira o osso do cão mentecapto

por Luiz Claudio Oliveira / blog SOBRETUDO

http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/sobretudo/otavio-linhares-esculpe-nuvens-enquanto-tira-o-osso-do-cao-mentecapto/


 

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

foto Henrique Thoms / projeto gráfico Frede Marés Tizzot

este texto não terá maiúsculas nem vírgulas. é assim que eu quero para mostrar como é parte da escritura de otavio linhares no livro o esculpidor de nuvens (curitiba. 2015 – encrenca literatura de invenção). sem vírgulas e maiúsculas. linhares embola a leitura assim como embola as características da linguagem prosaica com a poética. também embola os gêneros literários. o livro é dividido em duas partes. na primeira tem “o esculpidor de nuvens”. é uma voz mais infantil. não no texto ou na maneira de escrever. o que o personagem conta nos leva a crer nisso. o segundo é “o cão mentecapto”. com relatos de um voyeur urbano com problemas sexuais freudianos (quem não os têm?).

é um livro de contos. é um romance. é uma obra de poesia em prosa. é uma novela. são duas novelas. são dois romances curtos. são dois contos longos. são e não são. é e não é.

a literatura moderna vem brincando com esses limites. essas fronteiras de linguagem e gênero literário. é uma encrenca com a qual o leitor tem de saber lidar. literatura de ficção não é para explicar nada. nem dar discursos.

o livro trata de memória. de reflexões. de atitudes. de indagações. acertos e desacertos. trata do cotidiano passado. cotidiano presente. cotidiano inventado. sonhado. imaginado. o que é e o que poderia ter sido. ou não. é uma colagem de textos que montam uma paisagem literária própria que se descola da realidade. mas é uma realidade possível. que não precisa de explicações. epifania. é o que diz o texto de apresentação de roberto alvim.

livro teatral. porque linhares também é do teatro. sua escrita sabe como ser dita da boca pra fora. a literatura dele tem voz e fala. ao contrário da sua personagem primeira que diz: “quero conseguir falar. alguma coisa”. ele e a literatura dele conseguem. e é direto. fala na lata. persegue ensinamentos (ou desejos de escritura) que ele mesmo escreve em um dos textos. justamente aquele chamado de “o impossível”:

“comece do começo. não se perca em fábulas e vozes. e não se atreva a me labirintar entre corredores escuros e sombrios. não crie tabelas. não reverencie. não se emocione nem queira emocionar. não aumente as coisas querendo me dar dribles fantásticos e pulos duplos e triplos no ar. nem tente me tirar o foco. me conte só o que você viu. sem dar nomes, sem dar voz às coisas inanimadas. sem essa coisa de ver o invisível. pare com isso. vamos aqui. papo reto. pá pum!”.

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o autor também dá dribles. tira o foco. vê o invisível. o livro. as histórias que compõem o livro. a trama é várias (são? confuso? é!). é uma fuga e um reencontro. é imaginação real. o cotidiano que nos preenche. nos sufoca. nos escapa. porque não sabemos olhar. não sabemos contar. não sabemos.

“tô indo! queria que o cotidiano não nos estragasse tanto”. diz ele na página 75. “e começar mais um dia pode ser pior do que morrer”. completa em outro texto. na página 78. entre essas duas há ainda um outro texto. de uma só frase. chamado “a memória”. ele diz assim: “a memória é um chute no saco que dura a vida inteira”.

o livro. eu já disse isso aqui. é feito de pequenos textos. eles não têm uma sequência lógica. o leitor que monte o que quiser na sua cabeça. que complemente. que emende. que costure. que imagine. e há alguns textos que são totalmente descolados de tudo. imagino eu. há textos com dedicatória. há até poemas. como esse aqui assim:

o menino

apreendo palavras como quem tange o infinito.
o louco. o cego. o bailarino.

um menino.
que ainda sabe o gosto da chuva.
mesmo com o abismo sob seus pés.

nós. leitores. todos nós. temos de apreender. e deleitar. mesmo sobre o abismo. e isso o otavio linhares nos ensina. apreendemos enquanto nos equilibramos. mesmo que ele não queira ensinar nada. não é trabalho dele. o que ele quer? talvez. quer que a gente lembre o gosto da chuva. talvez. ele não sabe. não se pretende. mas pode ser um pedagogo literário. e como ele mesmo diz em um de seus textos. “e a pedagogia comendo solta. a pedagogia é uma mãe prostituta insana de açoite na mão.”


SERVIÇO

ENCRENCA – Literatura de Invenção
http://www.encrencaliteratura. com.br/loja-online
112 pgs
R$ 32,00